Associação Portuguesa de Investigação em Cancro
Classe de RNAs ao serviço do gene supressor de tumor p53
Classe de RNAs ao serviço do gene supressor de tumor p53

A instabilidade genómica é uma propriedade fundamental inerente ao cancro. O nosso genoma possui, no entanto, sistemas de vigilância que detectam e corrigem defeitos na cadeia de DNA (de maneira a que estes erros não possam progredir e tornar células saudáveis em cancerosas). O gene supressor tumoral TP53, mutado em cerca de metade de tumores humanos, é um factor de transcrição considerado o ‘guardião do genoma’. A sua activação regula vários genes-alvo e tem como único objectivo suprimir a anomalia detectada. Estes mecanismos garantem que as céulas com anomalias (cancerígenas) não se propagem no nosso organismo. Até recentemente, a extensa rede de genes-alvo regulada pelo gene p53 era composta apenas por genes codificadores de proteínas, isto é, genes cujo produto final é originar uma proteína. No entanto, o desenvolvimento de novas técnicas de sequenciação de última geração revelou que a maior parte do nosso genoma (eucariotas) é composto por DNA não codificante, isto é, DNA cujo produto final não é uma proteína. Estas regiões do nosso genoma são designadas por regiões não-codificantes e em vez de gerarem proteínas geram uma nova classe de reguladores do genoma, os chamados RNAs longos não codificantes (lncRNAs). Num artigo revelador, um cientista português, Carlos Melo, a efectuar o seu doutoramento na Holanda descobriu como é que o mais importante gene suppressor de tumor, o TP53, exerce parte da sua actividade anti-tumorigénica. Como este gene tem um papel crucial em impedir a progressão das células cancerígenas, a sua acção é de largo espectro, isto é, tem de ser capaz de regular vários parceiros genéticos dentro da célula. O trabalho de Carlos Melo mostrou que o gene TP53 exerce esta função ao interagir com regiões do genoma chamada de “enhancers,” isto é, regiões que uma vez activadas pelo p53 conseguem “enhance”, transmitir a accão do p53 a múltiplos outros genes, mesmo genes situados a uma longa distância (Melo CA et al Mol Cell 2013). No seguimento destes resultados, foi recentemente publicado na revista Oncogene, um outro estudo realizado por Carlos Melo e pelo seu colega de laboratório Nicolas Léveillé. Os investigadores mostram que as regiões não codificantes identificadas anteriormente são importantes para a activação de elementos fundamentais, nomeadamente um novo lncRNA chamado linc-475, durante o processo de supressão tumoral mediado pelo p53. O trabalho desenvolvido demonstra que os lncRNAs representam elementos funcionais do genoma não-codificante e que desempenham um papel crucial na biologia do cancro, podendo vir a ser utilizados em futuras abordagens terapêuticas.
Autores e Afiliações:
1Division of Biological Stress Response, The Netherlands Cancer Institute, Amsterdam, The Netherlands.
2Hubrecht Institute-KNAW and University Medical Centre Utrecht, Utrecht, The Netherlands.
3Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, Universidade do Porto, Institute of Pathology and Molecular Immunology of the University of Porto (IPATIMUP), Porto, Portugal.
4Department of Genetics, Erasmus MC, Rotterdam University, Rotterdam, The Netherlands.
Abstract:
Genome-wide chromatin studies identified the tumor suppressor p53 as both a promoter and an enhancer-binding transcription factor. As an enhancer factor, p53 can induce local production of enhancer RNAs, as well as transcriptional activation of distal neighboring genes. Beyond the regulation of protein-coding genes, p53 has the capacity to regulate long intergenic noncoding RNA molecules (lincRNAs); however, their importance to the p53 tumor suppressive function remains poorly characterized. Here, we identified and characterized a novel p53-bound intronic enhancer that controls the expression of its host, the lincRNA00475 (linc-475). We demonstrate the requirement of linc-475 for the proper induction of a p53-dependent cell cycle inhibitory response. We further confirm the functional importance of linc-475 in the maintenance of CDKN1A/p21 levels, a cell cycle inhibitor and a major p53 target gene, following p53 activation. Interestingly, loss of linc-475 reduced the binding of both p53 and RNA polymerase II (RNAPII) to the promoter of p21, attenuating its transcription rate following p53 activation. Altogether, our data suggest a direct role of p53-bound enhancer domains in the activation of lincRNAs required for an efficient p53 transcriptional response
Revista: Oncogene. 2016
Link: http://www.nature.com/onc/journal/vaop/ncurrent/full/onc2015502a.html





